Em um vilarejo situado no interior do Japão, a vida de uma família escorre frente à câmera. Os personagens falam muito pouco, entretidos em ações das mais prosaicas. Aqui, ainda em processo de maturação, o talento da cineasta japonesa (trata-se do seu terceiro filme) que depois realizaria “Shara” e “Mogari no Mori” já se mostra agudo para tratar especialmente da inserção de suas histórias no espaço e no tempo.
Tempo, que é talvez o aspecto principal de “Suzaku”. Além de o ritmo ser especialmente lento, o inexorável envelhecimento, a impermanência das coisas, as sutis mas decisivas mudanças e uma insuspeita elipse de 15 anos na narrativa (!!!) demonstram o quão capital é o trato com o tempo para o cinema de Naomi Kawase.
Estando tão afastada de um centro urbano, além de tornada simpaticamente idílica, Nara impele seus habitantes a percorrer longas distâncias para estudar, por exemplo, como é o caso da jovem Michiru. O deslocamento em meio a tanto verde, faz lembrar, em vários momentos “Lady Chatterley”, de Pascale Ferran.
Apesar de obedecer a uma estrutura bastante rígida (o enredo é cíclico, existem vários paralelismos), não existe sequer sombra de esquematismo na narrativa. O que transparece é um enorme desejo de testemunhar a ação do tempo sobre aqueles personagens, como eles vão se moldando segundo suas ações, como o amor vai surgindo junto com a inevitabilidade da morte. A família não funciona somente como um espelho da sociedade japonesa, mas cada um de seus membros vive sua história, tendo como testemunhas as montanhas, que viram aquela geração e continuarão por ali, a circundar Nara.
Mais do que um belo tratado sobre as vicissitudes da vida, “Suzaku” atesta a força que o uso da linguagem cinematográfica pode imprimir à passagem do tempo e às transformações operadas por ele.
Publicado em 29 de fevereiro de 2008 às 04:57 por artur