My Blueberry Nights – Wong Kar Wai

I don’t know how to begin
Cause the story has been told before
I will sing along, I suppose
I guess that’s just how it goes


A música cantada por Norah Jones durante os créditos iniciais parece tratar do princípio básico que regerá o filme todo. As histórias de amores desfeitos, reencontrados e inconclusos já desfilaram por toda a filmografia de Wong Kar-Wai, e depois da constatação de que o Sr. Chow não reencontrará Shu Li Zhen, o que resta é seguir a canção, cantando junto, como uma bela balada bluesy.
“My Blueberry Nights” carrega consigo a incômoda insígnia “o primeiro filme norte-americano” do diretor chinês, o que longe de determinar o quão melhor ou pior, mais ou menos autoral o filme venha a ser, coloca em jogo um elemento importante: a alteridade.
Elizabeth (Norah Jones), após uma decepção amorosa, decide, em suas próprias palavras “tomar o caminho mais longo para atravessar a rua”. Esse caminho compreende uma volta completa pelos EUA, e no trajeto, o seu encontro com outras pessoas vai moldando sua figura, transformando-a em alguém diferente, e consequentemente merecedora do que a aguarda no outro lado da rua (e do país).
A porção road-movie denota uma busca por arquétipos (garçonetes, policiais uniformizados, jogadores de pôquer) e mesmo por uma iconografia tipicamente americana (carros, Las Vegas, as auto-estradas), porém, o que perpassa o trajeto não é um desejo de sumarizar ou subverter, mas de documentar sensações. Neste ponto, é bom que se diga, o cineasta continua afiado.
È de se pensar que após o endurecimento sentimental do Sr. Chow, o movimento seguinte escolhido por Wong foi o de um recomeço carregado com toda a ingenuidade de quem se apaixona pela primeira vez. Ainda que essa ingenuidade alcance contornos por vezes irritantes, como nos terríveis diálogos ou em uma narração em off que sente a necessidade de explicar a todo momento o que está acontecendo.
O universo “wongkarwaiano” visto em um tom assumidamente menor (o diretor chegou, em entrevistas, a defini-lo como seu filme de férias) decepciona um pouco, mas a elegância e a capacidade que o cineasta tem de transformar as mazelas sentimentais alheias em material fílmico de primeira, além de presenças inspiradíssimas de David Strathairn e Natalie Portman transformam “My Blueberry Nights” em uma espécie de sobremesa pós “2046”.


 

Suzaku – Naomi Kawase

Em um vilarejo situado no interior do Japão, a vida de uma família escorre frente à câmera. Os personagens falam muito pouco, entretidos em ações das mais prosaicas. Aqui, ainda em processo de maturação, o talento da cineasta japonesa (trata-se do seu terceiro filme) que depois realizaria “Shara” e “Mogari no Mori” já se mostra agudo para tratar especialmente da inserção de suas histórias no espaço e no tempo.
Tempo, que é talvez o aspecto principal de “Suzaku”. Além de o ritmo ser especialmente lento, o inexorável envelhecimento, a impermanência das coisas, as sutis mas decisivas mudanças e uma insuspeita elipse de 15 anos na narrativa (!!!) demonstram o quão capital é o trato com o tempo para o cinema de Naomi Kawase.
Estando tão afastada de um centro urbano, além de tornada simpaticamente idílica, Nara impele seus habitantes a percorrer longas distâncias para estudar, por exemplo, como é o caso da jovem Michiru. O deslocamento em meio a tanto verde, faz lembrar, em vários momentos “Lady Chatterley”, de Pascale Ferran.
Apesar de obedecer a uma estrutura bastante rígida (o enredo é cíclico, existem vários paralelismos), não existe sequer sombra de esquematismo na narrativa. O que transparece é um enorme desejo de testemunhar a ação do tempo sobre aqueles personagens, como eles vão se moldando segundo suas ações, como o amor vai surgindo junto com a inevitabilidade da morte. A família não funciona somente como um espelho da sociedade japonesa, mas cada um de seus membros vive sua história, tendo como testemunhas as montanhas, que viram aquela geração e continuarão por ali, a circundar Nara.
Mais do que um belo tratado sobre as vicissitudes da vida, “Suzaku” atesta a força que o uso da linguagem cinematográfica pode imprimir à passagem do tempo e às transformações operadas por ele.


 

Top 10 2007

1- Paranoid Park (Gus Van Sant)
2- Dans Paris (Christophe Honoré)
3- Still Life (Jia Zhang-ke)
4- Eastern Promises (David Cronenberg)
5- Zodiac (David Fincher)
6- We Own The Night (James Gray)
7- Inland Empire (David Lynch)
8- Letters From Iwo Jima (Clint Eastwood)
9- Election II (Johnnie To)
10 Superbad (Gregg Motola) e Knocked Up (Judd Apatow)




 
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